O avanço das temperaturas e a possibilidade de eventos climáticos mais extremos colocam um novo desafio para as concessionárias de energia: preparar a infraestrutura elétrica não apenas para a demanda atual, mas para condições de operação mais severas. Com a alta probabilidade de ocorrência do El Niño neste segundo semestre de 2026, o planejamento da rede ganha ainda mais importância, especialmente diante da expectativa de temperaturas acima da média em determinadas regiões do país. Segundo nota técnica conjunta do INPE, INMET, Funceme e Censipam, a Região Sul tende a registrar temperaturas acima da média, principalmente durante o inverno e a primavera.
O impacto sobre o sistema pode ocorrer por diferentes frentes. Períodos prolongados de calor estimulam o uso de aparelhos de ar-condicionado, sistemas de refrigeração e outros equipamentos elétricos, elevando a demanda justamente em horários de maior consumo. O resultado pode ser uma combinação de aumento de carga, maior estresse térmico sobre equipamentos e redução das margens disponíveis em determinados trechos da rede.
O próprio Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) já considera o aumento da carga provocado pela elevação das temperaturas entre os fatores de atenção relacionados ao El Niño. Em julho, o órgão aprovou a antecipação de contratos que acrescentarão 1,8 GW ao Sistema Interligado Nacional (SIN) a partir de setembro, como uma das medidas para reforçar a segurança do atendimento eletroenergético.
Para as distribuidoras, entretanto, o desafio não se resume à disponibilidade de geração. É necessário avaliar se a infraestrutura de distribuição está preparada para transportar e entregar essa energia em condições de maior demanda. Transformadores, subestações, alimentadores, cabos, dispositivos de proteção e demais ativos podem operar mais próximos de seus limites, aumentando a importância de um planejamento capaz de antecipar pontos de saturação.
“Eventos climáticos extremos tornam ainda mais importante que as concessionárias trabalhem com novos cenários e não apenas com médias históricas. O planejamento precisa considerar como a rede irá responder a diferentes níveis de aumento de carga, quais ativos poderão se tornar gargalos e quais investimentos devem ser priorizados para manter a confiabilidade do fornecimento”, afirma João Moura, Engenheiro de Produto da Eaton.
Planejamento precisa antecipar diferentes cenários
Uma das ferramentas para enfrentar esse desafio é a simulação de cenários de demanda. A partir de dados históricos, previsões climáticas, perfil de consumo e características dos ativos, concessionárias podem projetar como a rede se comportará diante de diferentes níveis de temperatura e crescimento de carga.
Esse tipo de análise permite identificar, por exemplo, regiões nas quais transformadores ou alimentadores podem atingir níveis críticos de carregamento, além de indicar onde a expansão da capacidade, a modernização de equipamentos ou a redistribuição de cargas podem gerar maior impacto sobre a confiabilidade do sistema.
A lógica também contribui para tornar os investimentos mais assertivos. Em vez de atuar somente depois que um ativo apresenta sinais de sobrecarga ou uma interrupção acontece, a concessionária pode utilizar dados e modelos de planejamento para estabelecer prioridades, antecipar necessidades de expansão e definir estratégias de manutenção.
A digitalização da rede amplia essa capacidade. O monitoramento em tempo real de ativos e parâmetros elétricos permite acompanhar o comportamento da infraestrutura, identificar mudanças no padrão de carga e fornecer informações para que equipes de operação e planejamento tomem decisões com maior rapidez.
“Quanto maior a capacidade de enxergar o comportamento da rede, maior também é a possibilidade de agir antes que uma condição de sobrecarga se transforme em uma falha. A combinação entre dados, automação, monitoramento e ferramentas de planejamento permite transformar informações sobre clima e demanda em decisões concretas sobre a infraestrutura”, explica João Moura.
Clima passa a fazer parte do planejamento de longo prazo
A necessidade de preparar a infraestrutura para o calor extremo faz parte de uma transformação mais ampla no setor elétrico. A ANEEL promoveu, em agosto, um encontro específico sobre os impactos do chamado “Super El Niño” e a resiliência do setor elétrico brasileiro, reunindo representantes do governo, agentes do setor e especialistas para discutir estratégias de preparação diante de eventos climáticos extremos. Entre os temas abordados estiveram os planos de contingência das distribuidoras e os desafios para a operação coordenada da rede.
Para as concessionárias, isso significa incorporar variáveis climáticas ao planejamento da infraestrutura com uma perspectiva cada vez mais dinâmica. O objetivo não é simplesmente dimensionar a rede para o pico de consumo esperado, mas avaliar sua capacidade de responder a cenários que combinam temperaturas elevadas, mudanças no perfil de demanda e outros eventos que podem afetar a operação.
A resiliência, portanto, começa antes do período crítico. Ao simular cenários, identificar gargalos, monitorar ativos e direcionar investimentos com base em dados, as concessionárias podem aumentar a capacidade de resposta da rede e reduzir a probabilidade de que um aumento excepcional de demanda se transforme em uma interrupção no fornecimento.
“O planejamento energético precisa acompanhar a evolução do clima e do comportamento do consumidor. Preparar a rede para o calor extremo é uma forma de proteger a confiabilidade do fornecimento hoje, mas também de construir uma infraestrutura mais preparada para as condições que serão cada vez mais desafiadoras no futuro”, conclui João Moura.